domingo, 2 de agosto de 2020

PORTUGUÊS 2º ANO A

Diretoria de Ensino Região de São Bernardo do Campo 

EE OMAR DONATO BASSANI

Atividade de português – 2° bimestre – Professor Leandro – Semana de 03/08 a 07/08 - 2ºA – 5 aulas

Orientações: Não precisa copiar. Responder no caderno. Enviar por whatsapp ou Email.

Habilidades: 

Reconhecer o texto literário produzido no século XIX como fator de promoção dos direitos e valores humanos atualizáveis na contemporaneidade.

Conteúdo – Retomando a construção do herói e da heroína no romantismo. ( parte 1)

Aula planejada com base no caderno do aluno 2° bimestre e nas aulas expositivas do CMSP.



A VOZ SILENCIADA 


Durante o século XIX, período do Romantismo na Literatura Brasileira, a presença do negro nas obras literárias produzidas foi muito reduzida. Nos romances de época, eram muitas vezes silenciados ou representados como submissos e subjugados, sem voz ou resistência. Em 1859, uma escritora maranhense, Maria Firmina dos Reis, publicou Úrsula, considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil e o primeiro por uma mulher negra na América Latina. Nesse romance, a protagonista é uma mocinha branca clássica de romance, mas a autora dá voz às personagens escravizadas representando-as em toda a sua dimensão humana, com subjetividade e desejos individuais, quebrando o padrão da escrita dos folhetins da época. Maria Firmina dos Reis permaneceu esquecida dos estudos acadêmicos até a década de 70 do século passado, quando sua obra começou a ser resgatada e a devida importância ao que produziu vir à tona. Para conhecer a obra da autora, leia um fragmento do romance Úrsula. No trecho, pela primeira vez na literatura brasileira, o escravizado tem sua voz respeitada e denuncia as condições bárbaras dadas aos povos africanos. Essa é uma das muitas razões da importância histórica do romance.


Após a leitura “a voz silenciada” leia o fragmento abaixo, com ajuda do dicionário, dê o significado de cada palavra que se encontra em negrito e o entendimento. (do fragmento abaixo, do romance “Úrsula”).


Capítulo 9 – A preta Suzana 


[...] 

Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh, tudo, tudo até a própria liberdade! 

Estava extenuada de aflição, a dor era-lhe viva, e assoberbava-lhe o coração.

 — Ah, pelo céu! — exclamou o jovem negro enternecido — sim, pelo céu, para que essas recordações? 

— Não matam, meu filho. Se matassem, há muito que morrera, pois vivem comigo todas as horas. 

Vou contar-te o meu cativeiro. 

Tinha chegado o tempo da colheita, e o milho e o inhame e o amendoim eram em abundância nas nossas roças. Era um destes dias em que a natureza parece entregar-se toda a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bela, como o rosto de um infante, entretanto eu tinha um peso enorme no coração. Sim, eu estava triste, e não sabia a que atribuir minha tristeza. Era a primeira vez que me afligia tão incompreensível pesar. Minha filha sorria-se para mim, era ela gentilzinha, e em sua inocência semelhava um anjo. Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça colher milho. Ah, nunca mais devia eu vê-la. 

Ainda não tinha vencido cem braças do caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar acerca do perigo eminente que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram, e amarraram me com cordas. Era uma prisioneira — era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi possível. . . A sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava — pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus, o que se passou no fundo da minha alma, só vós o pudestes avaliar!

 Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura, até que abordamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé, e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa: davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca; vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim, e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!

 Muitos não deixavam chegar esse último extremo — davam-se à morte.

 Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que escaldou-nos e veio dar a morte aos cabeças do motim.

A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade fora sufocada nessa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades.

 Não sei ainda como resisti — é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. O comendador P. foi o senhor que me escolheu. Coração de tigre é o seu! Gelei de horror ao aspecto de meus irmãos. . . os tratos, porque passaram, doeram-me até o fundo do coração.

 O comendador P. derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de inteligência! E eu sofri com resignação todos os tratos que se dava a meus irmãos, e tão rigorosos como os que eles sentiam. E eu também os sofri, como eles, e muitas vezes com a mais cruel injustiça.

 Pouco tempo depois casou-se a senhora Luíza B., e ainda a mesma sorte: seu marido era um homem mau, e eu suportei em silêncio o peso do seu rigor. E ela chorava, porque doía-lhe na alma a dureza de seu esposo para com os míseros escravos, mas ele via-os expirar debaixo dos açoites os mais cruéis, das torturas do anjinho, do cepo e outros instrumentos de sua malvadeza, ou então nas prisões onde os sepultavam vivos, onde carregados como ferros, como malévolos assassinos acabavam a existência, amaldiçoando a escravidão, e quantas vezes os mesmos céus.

 O senhor Paulo B. morreu, e sua esposa, e sua filha procuraram em sua extrema bondade fazer-nos esquecer nossas passadas desditas! Túlio, meu filho, eu as amo de todo o coração, e lhes agradeço: mas a dor que tenho no coração, só a morte poderá apagar! Meu marido, minha filha, minha terra. Minha liberdade.

E depois ela calou-se, e as lágrimas, que lhe banhavam o rosto rugoso, gotejaram na terra.

Túlio ajoelhou-se respeitoso ante tão profundo sentir: tomou as mãos secas e enrugadas da africana, e nelas depositou um beijo.

A velha sentiu-o, e duas lágrimas de sincero enternecimento desceram-lhe pela face: ergueu então seus olhos vermelhos de pranto, e arrancou a mão com brandura. E, elevandoa sobre a cabeça do jovem negro, disse-lhe tocada de gratidão:

— Vai, meu filho. Que o Senhor guie os teus passos, e te abençoe, como eu te abençoo.

[...]


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